Muitos amigos me perguntam:
"Cara, o que faz uma pessoa treinar por dois meses, viajar por mais de 17horas, encarar um frio danado, para sofrer em uma prova de triathlon em condições adversas ? "
Bem eu respondo da seguinte forma:
- O que faz ?? É simples... mesmo depois de quase 1 mês, ainda ficar sentindo aquela mesma sensação de quando atravessei a linha de chegada depois de tudo... é isso que me faz.
A Escape From Alcatraz Triathlon é considerada, na comunidade do triathlon, como uma prova lendária e que completou neste ano a 33a. edição.
A natação é realizada nas águas geladas da baia de São Francisco, onde esta o famoso presídio de Alcatraz, aquele do filme "A Fuga de Alcatraz, com Clint Estwood" e que já foi considerado um presídio de segurança máxima e com apelido de A ROCHA, sendo que quem tentou escapar de lá ou foi recapturado ou morreu afogado.
O ciclismo e a corrida em terrenos desafiadores, com grandes subidas, vento, areia, escadas com +400 degraus, pedras...
Esta prova é tão procurada por atletas do mundo inteiro, que para fazer a inscrição é necessário preencher um fomulário com seu histórico esportivo e depois torcer para ser sorteado. Para então, fazer a inscrição.
Desde que comecei a fazer triathlon, esta era uma das provas que sonhava em fazer. Não somente pela sua tradição no esporte, mas por ser realizada em uma das cidades que mais aprecio nos Estados Unidos, San Francisco, Califórnia.
Todo ano, desde 1981, esta prova acontece em julho, ou seja, no verão Americano. Mas neste ano, devido ao Yacht Americas Cup que acontecerá nos meses de julho e agosto/2013, a prova teve que ser antecipada para o mes de março, final de inverno e inico do outono, o que aumentou ainda mais o desafio. Com temperaturas bem mais baixas.
A prova tem as distâncias diferente, sendo 2.400 metros de natação, 28km de ciclismo e 13km de corrida.
Bem, na verdade não é só a questão da distância que esta prova é diferente, mas o percuro em si é algo surpreendente.
Vamos a prova:
NATAÇÃO - 2.415m (1.5 milhas)
A festa começa as 4h da manhã, na Marina Green. Quando a área transição é aberta para que os atletas preparem seus equipamentos e em seguida pegar um dos onibus que leva até o pier 3, de onde sai o Ferry Boat para a largada da prova.
Como sempre faço, chego muito cedo na área de transição e desta vez o medo de perder o onibus não poderia ser diferente.
Acordei por volta das 3:30am, ou seja, não se dorme muito na véspera desta prova.
Tomei meu café no quarto do hotel mesmo, um cafezinho sem glúten e inventado na hora. No dia anterior fui no supermercado, comprei bananas, bolachas de arroz com sal marinho, blueberry, blackberry, tortilhas de milho e Maple Syrup. No quarto do hotel tinha uma máquina Starbucks para preparar um cafézinho e voilá, maquina abastecida.
Voltando para a largada...
Devido a temperatura baixa, assim que arrumei minhas coisas na transição, coloquei minha roupa de borracha, a bota de borracha e fiquei com ela o tempo todo. O problema com isso é que eu já estava pronto desde as 5:30am, ou seja, totalmente embrulhado para a prova que começaria as 7:30am. Bateu aquela vontade de fazer um xixi e não pensei duas vezes, fiz dentro da roupa mesmo... puta furada... ficou quentinho por um tempo, mas em poucos minutos estava congelante. (primeiro erro da falta de experiência em um clima desse)
Já dentro do ferry boat, aquela energia pré-largada que mistura ansiedade e empolgação toma conta, Arrumei um cantinho me deitei e fiquei tentando imaginar como seria encarar aquela travessia... o que eu estava fazendo ali, pois é, em toda prova nos minutos antes da largada penso nisso.
O bacana nesta pré-largada é que é uma grande confraternização do esporte. Atletas do mundo todo conversando, perguntando, rindo, rezando... afinal de contas, depois que a barca desatraca rumo a Alcatraz, não tem volta, o ticket do ferry boat é apenas de ida.
E como em toda prova deste nível, tem sempre um locutor "terrorista". O cara ficava o tempo todo falando de tubarões, dos leões marinhos, de que não poderiamos parar de nadar... puta despero. hahahaha. Ele só parou quando tocou o hino Norte Americano, na verdade o silêncio foi geral, é de arrepiar.
Assim que acabou o hino ouvimos a seguinte frase: "lembrem-se, cruzem o rio... cruzem o rio"
E as 7:40am a sirene tocou.
E começamos a descer as escadas que levavam para o primeiro piso da barca, onde nos jogariamos na baia, como na foto ao lado.
Bate um nervoso danado nesta hora. Você vai vendo que não tem volta quando chega na beirada, tem que se jogar.
E para evitar que você afunde, tem uma dica bacana. Você precisa sair da balsa como se estive caminhando e com os braços abertos.
Na hora que cai na água, literalmente tive um choque. Minha cara queimava, minha respiração ficou curtinha e bateu o desespero. Nesta hora só lembrei do que o amigo Marcelo Vallim comentou comigo na véspera, de não entrar em pânico quando caisse na água e sentisse o gelo que era. Preciso dizer, bateu um pânico sim.
Quando senti aquele gelo da agua a 7o.C, o rosto queimando comecei a procurar os caiaques e não achei, olhar para trás para ver se o ferry boat ainda estava próximo, mas não estava mais, pois a correnteza lhe puxa para a direita (para Alcatraz). Assumo, pensei em desitir !! Mas passa tanta coisa na cabeça, nossa como pode em tão pouco tempo passar tanta coisa. Pensei na viagem toda, na frustração, na minha esposa que me esperava na chegada, enfim, achei forças e motivação para continuar.
Durante uns 3min. nadei sem colocar a cara a na água, pois não aguentava o frio queimando o rosto. Com o tempo o corpo começa a "acostumar" com aquela violência e comecei a nadar direito. Mas as dificuldades não pararam. A correnteza da Baia de São Francisco é no sentido para a Golden Gate, o que para nós ali seria empurrando para a direita, e o vento vem no sentido Bay Bridge, ou seja, para esquerda. Bem e o que tem isso ?
Basicamente você é arrastado para a direita e precisa nadar o tempo todo forçando para esquerda, a respiração para o lado direito é prejudicado, pois com a força contrária do vento com a correnteza, pequenas ondas se forma e literalmente você leva "um soco" na cara quando respira somente para o lado direito.
Neste caso, a respiração bi-lateral acaba sendo um dos recursos necessários.
A respiração bi-lateral para mim nunca foi um problema, mas nesta prova não foi tão tranquilo assim.
Além disso, você nada em um local onde não tem bóias para lhe ajudar na direção. Quando você cai na água e olha para frente, não dá para ver onde é a chegada. O negócio é sair nadando, seguindo quem esta na sua frente e o tempo todo tentado achar as tendas brancas da transição.
Até que com todas as dificuldades e novidades, consegui fazer a natação sem muito zig-zag e em um bom tempo. 42min.
T1 - a transição da natação para o ciclismo.
Esta prova me apresentou algo que só tinha visto acontecer com outras pessoas.
Sai da natação bastante mareado, talvez pela respiração bi-lateral, talvez pelo frio, não sei. Mas sai da água bem zuado.
Nesta prova a transição tem quase 1km, por causa disso a organização orienta os atletas a levarem um par de tenis extra para deixar nesta mini-transição na saida da água.
Voltando a falar da minha saida da água... assim que passei neste pórtico da foto acima, tinha alguns voluntários ajudando a retirar a roupa de borracha e que estranhamente estava vazio, quase sem atletas usando este recurso.
Na hora nem pensei muito o porque estava vazio, me joguei no chão e deixei arrancarem minha roupa de borracha. A partir deste momento, a minha prova tomou outra dimensão. Por que assim que fiquei sem a roupa de borracha, comecei a tremer alucinadamente de frio. Quando sai da água com 7o.C, ainda estava "aquecido" pela roupa de borracha, mas assim que fiquei sem, encarei a temperatura ambiente de 10o.C com o corpo e o macaquinho molhado.
Comecei a caminhar lentamente até a mini-transição, onde estava o par de tenis, sentido muito zonzo. Quando baixei para calçar o tenis, a casa caiu... ou melhor, eu cai. Perdi o controle do meu corpo, parecia um desmaio, mas na verdade tive uma lipotimia (Lipotimia é a perda mais ou menos completa da consciência, acompanhada da abolição das funções motrizes e/ou motoras, a pessoa tem a impressão angustiante de que vai desmaiar, mas, de fato, raramente, perderá a consciência)
Quando acontece uma coisa dessa é que você comprova a força de uma excelente organização e de que cada centavo gasto no valor da inscrição foi muito bem pago.
Em menos de alguns segundos que espatifei no chão chegou uma pessoa da organização perguntando se precisava de ajuda e oferecendo hidrotônico. Como não respondia bem, ela perguntou se gostaria de um médico, mas antes mesmo de responder que sim o cara já estava na minha frente. O médico me fez algumas perguntas, as quais, não lembro direito. Em seguida ele mandou que ficasse em pé e pegou as minhas coisas que estavam no chão e saiu correndo na minha frente e pediu que o seguisse até a tenda de warm-up.
Chegando na tenda de warm-up, encontrei com mais uns 3 atletas que estavam na mesma situação que a minha, com hipotermia. Fiquei impressionado com o atendimento que recebi, com o preparo da equipe, com a estrutura da tenda, com a atenção que a equipe dava para cada atleta. Mas com o tempo aquela tenda que só tinha uns 4-5 atletas foi ficando lotada. Neste momento chegou uma Sra. botando uma nova ordem na "casa". Já estava lá dentro há quase 30min e não parava de tremer, com os dedos do meu pé ainda congelados apesar de toda a proteção e das técnicas de aquecimento usada. E esta Sra. depois que organizou a tenda lotada, foi de atleta em atleta e chegou até em mim. Ela me viu ainda tremendo, foi direto nos meus pés, assim que ela viu que estavam "congelados", pegou dois copões de agua quente, jogou em cima dos meus dedos e enrolou uma toalha. Depois disso não demorou 5 min e já estava sem tremer, em pé vestindo a parte de cima do macaquinho, pegando as minhas coisas e pronto para voltar para a prova. Assim que fui testado e liberado para voltar, foi a maior festa na tenda. Olha, essa alegria dos socorristas me deu uma motivação e uma alegria... Agradeci um a um pelo atendimento. E voltei para a prova depois de 38min na T1.
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| Chegando na bike, ainda com o protetor térmico e um pouco assustado |
CICLISMO - 28km (18milhas)
Ainda com o psicológico bastante alterado devido a experiência com a hipotermia, comecei a minha etapa de ciclismo desta prova.
Nos primeiros metros pedalando, comecei a tremer forte, novamente. Neste momento tomei uma descisão, de ir pedalando em uma cadencia mais alta (> 100RPM) enquanto ainda estava no único trecho plano da prova, na tentativa de elevar a minha temperatura.
Depois de uns 2-3km pedalando no plano, entramos na Lincoln Boulevard onde começam as subidas da do Parque Presidio San Franciso. Neste momento, estava com frio, porém já não tremia mais, mas ainda com cara de assustado. :-)
O percurso de ciclismo passa por dentro dos principais parques de San Francisco, Presidio Park, Lincon Park e do Golden Gate Park, este último com lindas paisagens que chegam a tirar a nossa atenção.
Mas estas belas paisagens também nos revigoram a encarar as fortes subidas que acumularam 650 metros de ganho de elevação.
Mais uma vez, os treinos passados pelo Rodrigo Tosta foram perfeitos. Tanto os treinos com cadência alta como os treinos de subida da vista chinesa e do Cristo Redentor cairam como uma luva.
Tem um trecho nesta prova que a subida é quase uma parede, veja no gráfico acima entre o km 17,5 e 22,5.
Nesse trecho muito gente desce da bike e sobe empurrando, mas é muita gente mesmo. E olha que teve uma hora que deu vontade de fazer isso também, a bike quase para.
No final das contas acabei fazendo um pedal extremamente conservador, nem nas horas das descidas aproveitava para melhorar a média. Duas coisas influenciaram para isso: o acontecido após a natação que tirou toda a minha confiança na prova e por esta pedalando com uma bike road depois de 3 anos usando somente bike TT não me sentia seguro.
Finalizando o ciclismo em 1h10min.
T2 - Transição do Ciclismo para a corrida
Esta transição foi super tranquila, tudo dentro da normalidade. A única coisa que me tomou um pouco de tempo foi a minha dúvida de colocar a meia que ainda estava encharcada da natação (usei a meia dentro da bota de borracha, outro grande erro da natação). Completei a transição em 3min56"
CORRIDA - 13km (8 milhas)
Como em todas a provas de triathlon é nesta hora que me sinto mais "relaxado", sem os sustos da natação ou os imprevistos do ciclismo.
Desta vez foi mais especial ainda, depois de tudo o que aconteceu na natação faltava apenas concluir os 13km de uma linda corrida, difícil, mas muito linda.
A corrida tem seu percurso na maior parte em trilhas, areia, pedras, escadaria.
Comecei correndo sem me preocupar com o que vinha pela frente, se tivesse que andar, eu andaria, mas queria correr sem nenhum tipo de preocupação com tempo ou pace. Apenas correr e curtir o final desta linda prova.
A primeira surpresa é que passamos por baixo da Golden Gate Bridge, que dá para ouvir o barulho dos carros passando. Sensacional.
Depois disso, uma pequena escadaria que levaria até a trilha que beira a estrada. Quando vi essa escadaria fiquei todo contente, pois achei que seria a tão temida escada de 400 degraus. Na hora até debochei em pensamentos "é isso aqui ?", mas a resposta estava por vi.
Depois de correr por alguns metros na trilha ao lado da estrada, entramos por uma outra trilha dentro de um parque com piso totalmente irregular, mas muito lindo. Por fim, já é possível visualizar a praia onde a corrida passa. A areia desta praia é relativamente fofa, mas não chega ser igual a do Rio. Muita gente tenta correr próximo a agua onde a areia é mais "dura", mas como sempre a onda vem e bagunça todo mundo. Eu segui correndo em uma linha reta no sentido da tão famosa escadaria de mais de 400 degraus.
Essa escadaria é coisa de doido. É realmente o ápice da corrida desta prova. Quando você chega na cabeceira e olha para cima, a sensação é de que não será possível subir mais de 75 metros em menos 400 metros.
Os degraus são todos irregulares e com muita areia fina. Usar as cordas e os tocos que servem de corrimão, não é uma opção, mas um recurso necessário. No início até tentei na usar deste recurso, mas isso não durou muito,
Consegui subir bem, não foi correndo mas não parei em nenhum momento. Fiz exatamente o que treinei. Para esta parte da prova o Rodrigo Tosta colocou no meu treino subir as escadas do meu prédio (16 andares) depois de ter pedalado e corrido por 30min. Mais uma vez providêncial.
Passado por este trecho, que já era metade do percurso, foi só alegria. Começa então a descida até a chegada da prova.
Estava me sentindo tão bem, que aumentei minha velocidade, correndo solto, agradecendo a todos os voluntários, motivando outros atletas que estavam se redendendo ao cansaço do desafio. Encontrei os atletas de Manaus, amigos do Dalton Cabral, dei um grito de "vamos Manaus, vamos Brasil" e os caras retribuiram e perguntaram de onde eu era. Disse que era do Rio e que era amigo do Dalton e os caras fizeram a maior festa, energia boa.
Nesta prova eu corri com o tenis GOBionic da Skechers, isso fez muita diferença. Por seu um tenis minimalista, tem uma maior percepeção do piso me ajudou muito a correr com mais coordenação e de forma "firme". Além disso, muito leve e veste muito bem.
Já na parte plana da prova, acelerei mais um pouco, tirei a camisa de manga comprida que estava usando para me proteger do frio que ainda sentia. Afinal de contas queria cruzar a linha de chegada com os logos das empresas sem glúten que me apoiam a mostra.
Quando cheguei na entrada do "curral" de chegada e avistei minha esposa uma alegria imensa tomou conta de mim e isso foi registrado por ela em uma daquelas fotos para guardar para o resto da vida.
Depois disso foi entrar no "curral" da chegada, dá aquele tiro para satisfazer o ego e exorcizar todo nervoso e dificuldade enfrentada nesta prova linda, desafiante, tradicional, histórica.
Depois de cruzar a linha de chegada eu não parava de rir, parecia uma criança que tinha acabado de ganhar um presente muito desejado. Tinha uma senhora (senhorinha mesmo) que colocou a medalha no meu pescoço e vendo a minha emoção me deu um abraço e disse:
"Congratulations, You Escaped, you are free !!"
AGRADECIMENTOS
- A Deus por tudo, sempre !!!
- Para Aline Castellar, minha esposa e a maior cumplice desta fuga. Que teve um momento de apreensão enquanto eu não chegava da natação, mas depois que me viu ficou aliviada. Obrigada meu Amor.
- Para o coach Rodrigo Tosta, responsável pelo planejamento e preparação desta fuga. Toda a preparação foi perfeita e funcionou muito bem. Mesmo com o problema após a natação, o que não teria como prever. Neste caso a frase que ele mais utiliza teve efeito: "Controle o Controlável"
- Aos amigos e apoiadores Sem Glúten: CASARÃO, SEM GLÚTEN ALIMENTOS, KARPOS ALIMENTOS, TIVVA, GAIATRI, ACELBRA-RJ, IRONGUIDES E EMPÓRIO SEM GLÚTEN.
- E a todos os amigos que ficarm aqui do Brasil torcendo por mim.
Viva de Forma Saudável !!!!